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29.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Parecia um coelho assustado, encolhido, quedo e impávido, colado ao vidro da Direcção Geral de Florestas, ali na João Crisóstomo. Se fosse no Verão ainda o fim da tarde viria longe, mas hoje, era noite cerrada e encharcada de chuva que resolveu cair toda ao mesmo tempo formando mantos de água por todo o lado.
Era um sem abrigo, talvez com a minha idade, se não fosse a idade estar camuflada pela tristeza de não ter identidade, nem casa, nem abrigo, ali encostado com a água a cair-lhe pelos ombros, cortina de água que era a porta da frente para a rua, mas também agasalho, aconchego, protecção virtuais.
As barbas escondiam-lhe parte do rosto e os olhos parados, virados para o vidro, não tinham qualquer expressão. Não via, portanto, o mundo a fugir da chuva à sua volta, as filas de carros a molengarem sem alternativa, nem pestanejava ao som dos passos que apressados passavam tão junto a si.
Além da chuva fazia frio. Ele tinha apenas um bocado de lençol onde se sentara. Talvez congele esta noite. Ou se deixe morrer afogado se se decidir deitar no passeio. Talvez, se não morrer este Inverno, consiga ter uma casa, e seja um com abrigo no próximo Inverno.
Talvez... a esperança é bom que eu a tenha. Porque ele não a tinha. De certeza.

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28.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Tinha um olhar fugidio, azul, mas não frio. De um azul profundo, como as águas do mar ao entardecer. Nem vale a pena dizer que o olhar era triste. Era muito triste. Mas o olhar das pessoas que se embalam nas carruagens do metro é sempre triste.
No entanto, ela tinha um olhar mais triste. Os óculos não o disfarçavam assim como também não encobriam o olho pisado, deitado a baixo pela face, por onde um vinco bem grande deixava ver um golpe onde já tinha havido sangue vivo e agora era só pisado. O negro que era castanho amarelado descia até junto ao queixo. À volta do olho direito o roxo desfiava matizes de lilás, púrpura e rosa até esse castanho que desmaiava em amarelo para se confundir com a cor da pele.
A evidência não deixava lugar para dúvidas.
Conhecedora demasiado perto de cenas de violência doméstica pus-me a fazer contas de quando tinha sido a agressão : talvez no fim de semana. O Domingo esteve chuvoso, é também aquela altura do mês em que já não há dinheiro. Ou então a situação é crónica: alcoolismo, desavenças que não têm cura, problemas entre portas que não vão sarar nunca...
Ela teria uns 50 anos. Talvez fosse trabalhar numa casa, a dias. Tinha um tique na boca como se estivesse sempre a mastigar. Humilde, com poucos estudos mas parecendo educada.
Como explicaria ela o olho negro? Ou fazia de conta, como ali,que não tinha nada de especial, que podia ter sido uma queda, ou nem isso? Ocultava esse detalhe?
Tentei ser discreta mas não consegui. O horror daquela face desfigurada e tão exposta, numa senhora que ia de metro para o trabalho era gritante. Pensei na telepatia.Talvez conseguisse falar com ela dessa forma. Mas ela não estava disposta a ouvir. Nem a falar. Saiu na mesma paragem que eu com o saco de plástico na mão, o tique na boca e o olho negro do murro. Saberia ela que era uma vítima? Pareceu-me que achou que éramos todos. E não parecia importar-se com isso. Ainda me olhou com algum desdém. Eu desapareci com a sua dor.
Mitos Online:

27.1.04

Novas Mitologias do Mundo
A morte em directo mergulhou o país num estado liquído de consternação - a chuva acompanhou em simultaneo as lágrimas por esse país fora, por esse mundo fora e parecia um rio de gente molhada nas faces, nas roupas.
Não conheço ninguém que tenha ficado indiferente. E, no entanto, é sempre o que temos certo quando vivemos: a morte. Lidamos é muito mal com ela. E não adianta virmos com explicações ou divagações - se é de repente é horrível, se é doença e provoca sofrimento interminável, a morte, mesmo que esperada, continua a ser horrível. É-o para os mais idosos porque já vivemos com eles o tempo suficiente para partilhar momentos inesquecíveis da nossa vida; é-o para os mais novos porque têm todo um caminho a percorrer e a aprender; é-o para os nossos pequeninos ou grandes porque não encontramos conforto nem conformação nessa morte traiçoeira que os leva.
Uma amiga dizia-me hoje que a ela lhe custa mais saber que há crianças violadas todos os dias. Do que a morte, mesmo em directo. Mesmo que a de um filho, embora nunca tenha passado por ambas as experiências.
Mais uma vez a morte - o tema da morte, mais propriamente o tema da morte de um filho se cruza no meu caminho. Felizmente que apenas o tema.
E não consigo encontrar explicações para poder dizer que encontraria consolo nalguma coisa- religião, xamanismo, reencarnação, ou outra qualquer.
Para uma mãe ou um pai - perdoem-me os pais mas sou apenas mãe, portanto para uma mãe - a morte de um filho é uma morte em nós mesmas. Nem sequer é apenas uma parte de nós que morre; é a morte que vem e fica em nós para sempre.
Ontem, durante o dia, só pensava na mãe de Fehér. Talvez porque tenho filhos com idades próximas do rapaz, talvez porque o medo da morte dos filhos é o maior medo que me acompanha em vida.
Pensava nela e não me conformava: " Se tivesse sido um dos meus filhos!"
É nisso que penso quando penso na morte. Ou quando tenho medo da morte. Porque há várias mortes. Para algumas existem explicações. Nem venham com ilusões. Por muito dolorosas que sejam há explicação. Mas nunca para a morte de um filho.
Sempre que alguém morre eu penso nas mães dos mortos. E como elas devem estar mortas também. Quando morre um filho há sempre uma morte dupla.

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26.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Acompanhámos na televisão e depois via rádio a desinvolução do estado de Fehér e quando o desfecho se deu da forma como prevíamos, houve um que disse com convicção mais para si próprio do que para nós que entristecidos tinhamos baixado os braços: "Isto é um aviso! Para esquecermos tudo o que nos empata a vida e aproveitarmos todos os momentos!" Concordámos todos em silêncio. E decidimos que é isso que vamos fazer.
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Novas Mitologias do Mundo
O verde agora é rei e os pássaros parecem uma nuvem inquietante de praga egípcia mas é tudo imaginação, pois só pode ser ilusão a calma e o silêncio, a felicidade reencontrada nas coisas simples que não vemos dia após dia.
Decidi que lá seria o meu refúgio, o meu castelo, o meu segredo.
Silvino é um pastor que pouco sabe juntar as palavras e fazer delas sentido embora tudo o que diga seja demasiado coerente. Não é apenas esperto e inteligente: é um sábio das planícies. As ovelhas que apascenta são como os livros que não consegue ler e é através delas e dos lugares mais ermos e recônditos que consegue elaborar as suas teses sobre o governo do mundo, de Portugal e do seu Alentejo. E o presidente da câmara, rapaz com estudos e dedicado ao município e aos anseios das gentes humildes, ouve-o com atenção e até aplica a lição na prática. Tal como eu que enleada me deixo levar naquele sotaque tão característico desfiando não só teorias mas também efectivas soluções para a terra que “se não a agarrarem vai toda para os espanhóis.” Ouvindo-o sinto que ainda há esperança para o Alentejo profundo. Apesar de lamentar, embora compreenda, que a vizinhança do outro lado da fronteira até é bem querida e que teremos de provar de forma concreta que aquela terra é nossa. Por mim é o que farei no meu castelo, no meu refúgio. Será a minha demanda.

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20.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Às vezes as coisas simples nem sempre o são quando se tentam explicar. É o que tem feito uma amiga minha incumbida de uma missão. E garanto-vos que não tem sido fácil. Primeiro explicar a simplicidade é do mais complexo que há. Depois quando alguém se sente responsável por uma mensagem não sabe bem se ela passa na íntegra. Sair da realidade quando se está na real mas não se entende o que é real e tentar transmitir essa percepção é complicado. Vou tentar absorver essa mensagem e descodificá-la para melhor entendimento.
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19.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Talvez devesse dizer que apenas aqui estou de semana a semana mas não é verdade já que a minha visita bloguista é praticamente diária, embora com cariz voyeurista. E não me arrependo, não senhor! Há muita gente a escrever como nunca ninguém escreveu e eu não resisto a ler e a admirar. Já sei, que a preguiça é um pecado que também existe na escrita e do qual padeço, mas escrever só por escrever, sem ter sentido não é adequado num blogue que ainda se preza. Ao contrário do que dizia no último post, já me parece que a blogosfera adquiriu de novo o seu alento e isso torna os meus dias melhores.
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12.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Notei, com alguma tristeza, que com o ano novo, alguns blogues reduziram a sua actividade, ou antes, pareceram perder algum interesse pela blogosfera. Espero que seja passageiro pois, egoisticamente, preciso de vocês.
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9.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Há palavras que só por si encerram mundos. Redundância! Todas as palavras contêm mundos. São mundos. Mas não é isso. Gosto particularmente de esmaecer e de estromónia.
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2.1.04

Novas Mitologias do Mundo
Para os meus amigos bloguistas e outros que tais espalhados pelo mundo e pela minha vida um óptimo Feliz Ano 2004!
Mitos Online:

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